Ana Natividade

STAGE

Mas, acima de tudo, a poesia enche-me
da necessidade de escrever poesia,
de me sentar no escuro e esperar que uma pequena chama
me apareça na ponta do lápis.

E ao mesmo tempo, do desejo de roubar
de irromper pelos poemas dos outros
com uma lanterna e uma máscara de esqui.

E que triste bando de gatunos nós somos,
carteiristas, larápios vulgares

Billy Collins, O Problema da Poesia (trad. Ricardo Marques)

“Onde diabo aprendeu todas essas loucuras, Senhor Ludovico?” — foi
mais ou menos esta a pergunta que o cardeal Hipólito d’Este fez ao seu
protegido Ariosto, depois de ter lido Orlando Furioso.

(…) A leitura de Ariosto é perigosa, já Cervantes o sabia. Dum modo
geral, a cultura literária instaura critérios que não se podem atingir na
realidade; o campo é demasiado circunscrito.

A frase céptica de Hipólito d’Este não é apenas a pergunta de um
cardeal, mas uma pergunta cardinal. (…) Não podemos deixar de
perguntar a nós próprios porque empreendemos isto ou aquilo — e que
resposta receberemos. E interrogarmo-nos sobre a sua justificação.

Ernst Jünger, Drogas, Embriaguez e Outros Temas

Frontstage

A pergunta de Ernst Jünger leva-nos a pelo menos outras duas perguntas pertinentes para o critério curatorial desta exposição. A primeira diz respeito à escolha dos artistas e a segunda à escolha do meio. Ambas estão ligadas.

Tratando-se de festejar a tradução de Al Berto e de o homenagear, o primeiro critério para a escolha dos artistas poderia ter sido o de convidar os seus amigos e os artistas que admirou. Bastaria percorrer A Secreta Vida das Imagens ou os Diários. Teria sido
uma homenagem justa.

Contudo, se todas as escolhas são difíceis, sentimos que esta seria uma escolha fácil. Porque estava feita e porque, caso aceitassem o nosso convite, estes artistas são, hoje, consagrados. Foram os encontros que fizeram parte da vida de Al Berto. Nós quisemos trazer o Al Berto para a nossa vida e para a nossa escola. Por isso, um pouco ao sabor dos nossos encontros de agora, escolhemos artistas conhecidos ou desconhecidos, consagrados ou emergentes, professores ou alunos. Alguns dos artistas eram Residentes na MArt quando este projecto começou. Outros foram professores ou convidados ou partilharam as suas experiências connosco de diferentes formas. Outros ainda, foram uma ponte de ligação entre tudo isto. Alguns, é claro, também foram amigos de Al Berto. Muitos não faziam gravura, mas aceitaram o desafio. Outros estão entre as imagens e as palavras como o Luís Manuel Gaspar, o Tomás Cunha Ferreira, o André Almeida e Sousa e eu.

Porquê gravura? Porque é o que faço, seria a resposta imediata. Mas há uma motivação mais profunda que se liga à pergunta de porque faço o que faço.

Apesar de coordenar uma oficina, a gravura não é o único meio, ou sequer o primeiro no meu trabalho.

Uma oficina de gravura e/ou impressão pode ter diversas valências. Pode estar ao serviço de uma escola como laboratório de pesquisa, ao serviço de artistas como espaço de trabalho e apoio técnico e pode dedicar-se à edição.

E pode ser, em qualquer dos casos, um lugar de partilha e de encontro de pares.

Não escolhemos gravadores, mas artistas, gravadores ou não. Esta não será tanto uma exposição de gravura contemporânea como uma exposição de gravura nos seus modos de usar.

Se tivéssemos pedido aos artistas para fazer outro tipo de trabalho ter-se-iam fechado cada um no seu atelier e não haveria lugar para este encontro.

A gravura obriga-nos.

A sair do atelier, a trabalhar ao lado dos outros, a trabalhar com os outros e, se tivermos sorte, a trabalhar para os outros.

A gravura é um processo de mediação longa entre nós e o nosso trabalho.

A gravura permite pegar nas imagens e desmontá-las, testá-las, levá-las ao limite e às vezes, como no caso das edições, à exaustão.

A gravura é transparência, como diz a Inês.

E para quem, como a Ana João, faz do processo o seu trabalho, a gravura é mediação e tempo. Desacelera, projecta, mas também permite trabalhar em queda livre.

A gravura é o contrário do verão.

“O Verão afasta as pessoas” – queixa-se Al Berto nos seus Diários onde continuamente espera e conta o encontro com os amigos.

Esta foi uma das motivações para criar a oficina de gravura da MArt. A MArt é agora uma escola dentro da escola Manuel da Maia, mas a oficina é também uma escola dentro da MArt. Esse é o seu primeiro e mais importante papel, a par das aulas de pintura e desenho do Paulo, do André e da Francisca, das provocadoras sessões de arte contemporânea do Miguel, da oficina de cerâmica da Mariana. Na oficina pensamos juntos, não apenas linguisticamente, mas sobretudo fisicamente. Às vezes comunicamos com cores e pesos e texturas, sem precisarmos de palavras.

Neste caso o trabalho que normalmente fazemos com os alunos e residentes foi o trabalho que fizemos com os artistas, que assim regressaram à escola.

Agradeço aos artistas mais experientes, que nunca se dedicaram à gravura, pela disponibilidade e humildade com que chegaram à oficina e alegro-me ao perceber que esta foi também para eles uma descoberta ou redescoberta, sobretudo nos casos do João Queiroz, que fez a sua última ponta-seca nos anos 80, do Pedro Sousa Vieira e do João Jacinto. Houve também quem voltasse literalmente à escola onde andou, como o Alexandre Conefrey, habituée da gravura, ou voltasse à gravura como o André Almeida e Sousa ou ao metal, como a Francisca Carvalho. E houve quem estivesse em casa e fosse ganhando confiança com a gravura a cada dia, como o artista residente Frederico Pratas.

Que não se leia aqui um elogio da leviandade na forma de fazer gravura ou de falta de seriedade no modo com que nos propomos fazer parte desta tradição. Se maior razão não houvesse, a responsabilidade e a honra que é para nós expor no Istituto Centrale per la Grafica não nos deixaria cair nesse erro.

Há que saber pedir licença para poder participar desta conversa tão antiga. Mas não podemos ter medo de balbuciar ou nunca chegaremos a dizer nada de nosso.

Embora a edição das dez colecções que nos propusemos fazer esteja a merecer toda a nossa atenção, empenho e rigor, e seja um importante e imprescindível resultado final deste processo, não é, para nós, o ponto de chegada do projecto. A edição é mais uma desculpa para nos juntarmos e trabalharmos para um objectivo comum.

Há ainda uma terceira pergunta.
Porquê tantos?
Para que se instaure a confusão.

Backstage

Passei a minha infância e adolescência nos bastidores. Coisas maravilhosas aconteciam no estúdio, nos camarins, no guarda-roupa, nas oficinas, nas passagens secretas, atrás e por baixo do palco, nas salas de luz e de som. Havia um caminho subterrâneo que ligava o sub-palco ao jardim, como uma ligação instantânea entre o dia e a noite. Passei horas a ver e a ouvir o Carlos Paredes e estive ao lado da Constança Capdeville enquanto gravava o Libera me. Era assim. E era normal.

Tornava-me transparente para ver os bailarinos, os pianistas, os músicos, os coreógrafos e em 1984 vi, sem saber quem fosse, o Al Berto que trabalhou com o meu pai, Vasco Wellenkamp, e com o Ricardo Pais, o António Lagarto e a Constança em Só longe daqui. Eu tinha treze anos, não conhecia Al-Mu’tamid e durante muito tempo não soube escutar ou ver a poesia de Al Berto. O nome, que então julgava construído como um trocadilho fácil, afastava-me das palavras que sem saber já trazia dentro de mim. O mar, sempre ligado aos versos — “o mar acorda o mar acorda o mar / o mar”, “Só longe daqui….” — que a minha mãe, Helena Lozano, sussurrava todas as noites ao microfone com o calor da sua voz carioca. A minha mãe era uma Vampe no texto de Al Berto e Ricardo Pais. Vestida de negro, fumava teatralmente sem saber fumar por uma longilínea boquilha enquanto se debruçava do cimo de uma prancha de piscina na primeira coulisse a 5? a 10? metros de altura. Cá em baixo, no palco, havia a loucura das imagens: carros e cisnes e leopardos e homens de cabedal com chicotes.

Tornaria a cruzar-me sem me cruzar com o Al Berto na noite de Lisboa: nos Pastorinhos, no Frágil, no Majong, na Rua. O Al Berto não fez só parte dessa noite, mas criou-a e de tal modo que ainda hoje é possível lá voltar.

A transparência continua a servir-me. Coordenar a oficina também é desaparecer para que os outros possam fazer o seu trabalho. Estar e não estar presente conforme a necessidade de cada um em cada momento. Traduzir. Espero tê-lo conseguido algumas vezes embora saiba que essa é a tarefa mais delicada e difícil de todas.

No início do projecto, marcava as sessões com cuidado, princípio, meio e fim, de modo a não sobrepor artistas, mas à medida que o tempo se foi tornando lábil decidi perder o controle e dizer aos artistas para aparecer a qualquer hora. A oficina escola transfigurou-se em oficina atelier em oficina casa em oficina consultório em oficina sambódromo. Coisas maravilhosas começaram a acontecer. O trabalho tornou-se tanto recusa e necessidade de distanciamento do outro, como assimilação e roubo. Roubámo-nos uns aos outros e “como larápios vulgares” trocamos tintas, papéis, técnicas, olhares, formas, formatos e confissões.

O Luís Almeida, a trabalhar em água-forte, quis experimentar o verniz-mole do João Queiroz e do Alexandre que entregou, como um segredo e testemunho, as escovas de arame e os melhores lápis ao João Jacinto. A Constança usou, na sua receita de tinta, a mistura que a Mariana fez com o amarelo do Luís Silveirinha que afinal era o meu. A Francisca abria a caixa do André como se fosse a sua. Proteger as tarlatanas das contaminações de cor tornou-se uma tarefa de Sísifo para o Enrico. E o Nuri, passageiro clandestino, ia imprimindo nas sobras de papel.

Tive o privilégio de observar e aprender com cada um: a exaltação disciplinada do Frederico; a cautela convicta da Marta; a afasia do Gonçalo; a loquacidade da Francisca ou do Luís Almeida; a elegância da Constança; a desconfiança tímida do Paulo; a luta do André; a cor aérea do Luís Silveirinha e a cor carnívora da Susana; o negro profundo do João Jacinto, para quem cada acidente é uma oportunidade e uma alegria e a persistente recusa de desvios da Mariana. A generosidade do João Queiroz, — Não é preciso limpar muito isso, que o tipo para quem fazemos isto não haveria de gostar de uma coisa tão certinha— que arriscou trabalhar num meio que não é o seu. E eu pude ser um pouco professora de quem é meu professor há 32 anos.

A Run que teve a Bárbara entretanto e trabalhou a partir de casa pela mão do Luís. E a tranquilidade da Joana que rodeia as chapas como os predadores rodeiam as presas, e a naturalidade da Inês que grava como quem respira, e a discrição e sabedoria da Ana João. Houve também quem não pudesse ou não conseguisse trabalhar na oficina: o Tomás Cunha Ferreira, entre ilhas e continentes; os musa paradisiaca que me deixaram um desafio inesperado; o João Cochofel, guardião da Diferença; o João Decq que leva e traz a oficina às costas; o Carlos Corais, amante da gravura, e o Pedro Sousa Viera que estão no Porto. E o Luís Manuel Gaspar que dedicou ao Al Berto um desenho pleno de intimidade e lentidão. E eu, invadida por todos, fui desenhar para casa.

O Enrico pergunta-me, como quem já sabe a resposta, se gosto de trabalhar para os outros. Gosto. Como se o trabalho dos outros fosse o meu trabalho. É o meu trabalho. E gosto de ficar a vê-los trabalhar, como sempre fiz. Não há aqui qualquer altruísmo. A oficina tem duas portas opostas: à primeira porta chega-se atravessando a MArt, passando pelos espaços comunicantes da salas de aulas e dos artistas residentes. A segunda é uma porta pequena que é preciso conhecer e à qual se acede vencendo o recreio da escola Manuel da Maia. Depressa os artistas aprenderam os caminhos para entrar e sair.

Nos dias em que as sessões eram contínuas, um artista saía por uma porta e logo entrava outro artista pela outra.

É como no teatro — observou a Francisca.

E é mesmo.

Agradecimentos

Ao Federico, “noite e dia da mesma luz”.

A todos os artistas pela confiança e generosidade com que aceitaram este desafio.

Aos meus colegas na MArt que todos os dias confiam em mim, me ajudam e aturam para que guarde a minha energia na oficina.

À Patricia, amiga e Directora talentosa.

Ao André e ao Paulo, meus amigos e professores com super-poderes.

À Joana que me ouve em loop e me corta as chapas.

Ao Enrico, que chegou para me ajudar quando precisei, e ao Nuri,
presenças luminosas na oficina, ambos.

À Teresa Castanheira que me iniciou no Zinco ao telefone. Ao João Cochofel que sempre me acode e surpreende. À Mami Higuchi que nos traz o Japão sem sairmos de Portugal.

À Joana Paradinha que trabalhou com o Pedro e o Carlos na sua Oficina no Porto.

À Dra. Maria Antonella Fusco e à Dra. Emília Ferreira pela confiança neste projecto.

Ao Antonio Caramoni que recolheu as caixas.

À Sara pelo cozido.

À Teresa, amiga dos bastidores, e ao Jorge, quase todos os sábados.